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Este mapa afetivo é um produto do Laboratório de Cartografia com crianças da Vila Autódromo, que teve como objetivo reconhecer a comunidade enquanto um espaço vivido, através do olhar daqueles que habitam e aproveitam intensamente o lugar da forma mais lúdica possÃvel: as crianças.
O trabalho foi desenvolvido a partir de encontros realizados na propria Vila Autódromo ao longo do primeiro semestre de 2012. QuerÃamos saber quais os lugares mais legais, mais interessantes, mais amedrontadores, mais divertidos da comunidade na visão delas. A partir da conversa fizemos dois grandes mapas, botando no papel diferentes formas de representar a vida em Vila Autódromo e a delicadeza das relações que acontecem nestes espaços.
Em seguida, utilizando recursos audiovisuais, estes espaços foram registrados a partir de uma deriva conduzida pelas crianças. Tiramos fotografias, filmamos e gravamos audios desse delicioso passeio através das ruas da Vila Autódromo.
O olhar das crianças sobre o lugar chama atenção para outras perpectivas sobre a comunidade que, diante da tensão atual, passa quase como desapercebidas. Esta perspectiva representa uma contraposição à visão da comunidade como apenas um conjunto de casas, passivel de substituição, que embasa a perspectiva da remoção.
O ponto de vista infantil sobre vivência cotidiana local mostra como se formam laços afetivos com o lugar e as pessoas que estão intimamente ligados ao espaço da Vila Autódromo. A sombra da árvore em frente ao Bar do Cleber, os mutirões de limpeza do canal, a convivência com os vizinhos, as bricadeiras na rua, os bichos, a lagoa. A interação dos moradores com esses lugares e entre si atribuem a esse espaço fÃsico uma riqueza imaterial - cultural, histporica e socia. Essa cartografia busca, dentro das suas limitações, retratar.
Sobre a Vila Autódromo:
A comunidade Vila Autódromo fica no bairro de Jacarepaguá, onde vivem de 500 famÃlias de baixa renda, há mais de 20 anos. A ocupação foi iniciada em meados da década de 1980, e, em 1989, outras famÃlias oriundas da Comunidade Cardoso Fontes foram assentadas no local. Diferentemente de outras comunidades carentes da cidade, a área está demarcada como AEIS (área de especial interesse social) e parte dos moradores da Vila Autódromo possui o tÃtulo de Concessão de Direito Real de Uso expedido pelo ex-governador Leonel Brizola em 1998, o que vem dificultando as tentativas de remoção.
A área é cobiçada pelos grupos imobiliários e da construção civil devido à crescente valorização imobiliária da região nos últimos anos, seja por estar situada no entorno da Lagoa de Jacarepaguá e da praia do Recreio, seja pelos lançamentos imobiliários destinados às classes média e alta, e ainda pelos grandes projetos culturais e esportivos realizados e projetados para a região.
A comunidade tem um histórico de resistência popular contra as tentativas de remoção promovidas pelo poder público desde a década de 1990. Atualmente as ameaças de remoção ganham uma nova dimensão no contexto do projeto de preparação dos Jogos OlÃmpicos. A comunidade foi informada oficialmente de que a Prefeitura pretende removê-la para viabilizar a construção de instalações esportivas através de PPP - Parceria Público-Privada, onde a utilização privada de terra urbana abundante para a promoção de novos lançamentos imobiliários seria um dos vários benefÃcios para atrair a participação dos grupos privados. Ou seja, a retirada de uma comunidade de baixa renda, consolidada, tem sido colocada como prioritária pela Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro para viabilizar mais um projeto de mercantilização da cidade. Para os moradores estaria reservado um empreendimento do Programa Minha Casa Minha Vida próximo à comunidade. O projeto era cadastrar as famÃlias e removê-las ainda em outubro de 2011. Enquanto as unidades habitacionais não estivessem concluÃdas, as famÃlias receberiam aluguel social da Prefeitura. O cadastro das famÃlias foi iniciado. Entretanto, após denúncias de que o terreno no valor de quase 20 milhões de reais, destinado ao reassentamento, era de propriedade de doador de campanha do prefeito Eduardo Paes, a Prefeitura cancelou sua aquisição.
Quando lançado o edital para a licitação da PPP do Parque OlÃmpico, os moradores, em conjunto com a Defensoria Pública do Estado, conseguiram obter uma liminar de suspensão da mesma, até que a prefeitura esclarecesse que o direito à moradia das famÃlias da Vila Autódromo estaria garantido. Desmentindo informações que a própria prefeitura havia dado anteriormente, a procuradoria do municÃpio, em resposta, afirmou que a remoção da comunidade não seria em função do Parque OlÃmpico, mas das obras de mobilidade previstas para a região, da Transcarioca e TransolÃmpica, que cortariam a área. Estudos técnicos elaborados e divulgados pela prefeitura também não confirmam a informação, já que as vias no máximo tangenciam a área, sem implicar na necessidade de remoção. As informações contraditórias cada vez mais confirmam a hipótese de que a principal motivação para a remoção é o interesse imobiliário.
Sendo assim, os moradores em conjunto com o ETTERN/IPPUR/UFRJ e NEPHU/UFF, elaboraram um projeto de urbanização que demonstra a viabilidade da regularização fundiária para toda a comunidade e sua compatibilidade com a implantação dos equipamentos esportivos e obras de mobilidade urbana. Tal projeto representa um grande avanço do ponto de vista da diretriz presente no Estatuto da Cidade, qual seja o PrincÃpio da Gestão Democrática da Cidade, uma vez que o Plano Popular de Urbanização da Vila Autódromo foi elaborado em conjunto com os moradores e levando em consideração suas demandas concretas, além de demonstrar a viabilidade da regularização com custo mais baixo aos cofres públicos do que a remoção da comunidade. No entanto, ao apresentarem o Plano ao Prefeito da cidade, os moradores não obtiveram resposta sobre a intenção de utilizá-lo ou não.
Fontes: http://comitepopulario.files.wordpress.com/2012/08/planopopularvilaautod... e
http://comitepopulario.files.wordpress.com/2012/04/dossic3aa-megaeventos...